O pesquisador Fernando Nakayama tem um sonho: criar variedades de café robusta geneticamente adaptadas para viabilizar a produção em escala em solo paulista.
Mas, para atingir esse objetivo, era preciso superar a histórica rejeição das plantas ao clima e ao solo locais. Naka, como é conhecido na classe, já conseguiu dar alguns passos.
O primeiro foi fazer vingar variedades na região de Adamantina, onde nasceu e atua como pesquisador científico em uma das 18 unidades da APTA (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios), rede vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento.
Em 2024, a iniciativa foi alçada a política pública no programa Canéfora SP. Como outras iniciativas ligadas à cafeicultura no Estado, há linhas de crédito do FEAP (Fundo de Expansão do AGRONEGÓCIO Paulista) com juros entre 2% e 3% para investimentos em mudas, armazenagem, irrigação e beneficiamento.
Por enquanto, o projeto é experimental, com um volume “artesanal”. A produtividade também não chegou no nível de outros estados produtores: são entre 70 e 80 sacas por hectare, ante entre 100 a 120 no Espírito Santo. “Mas é um começo”, diz o pesquisador.
Expansão do robusta favorece pesquisa
A reabilitação do robusta atualmente em curso favoreceu a pesquisa para adaptar canéforas (dos quais o robusta e o conilon são subespécies, embora “robusta” seja usado como sinônimo de “canéfora”) a São Paulo, segundo o pesquisador.
A espécie ainda é secundária na planta cafeeira nacional, majoritariamente escorada no arábica — mais cobiçado pelos principais mercados no exterior, como Estados Unidos, Europa e Japão. Mas nos últimos dois anos, o diferencial de preços em relação ao arábica diminuiu.
Isso ocorre ao encontro de melhorias recentes na qualidade do manejo pré e pós colheita que, segundo especialistas, vêm revertendo a má fama de ser um café de segunda qualidade, apenas “para enchimento”.
Outros vetores ampliaram o interesse pelo canéfora. Por exemplo, o aumento no consumo de café, que se sustentou mesmo em cenário de preços altos, e que vem incentivando mudanças no blend — a mistura de variedades nos produtos no varejo, do café em pó às cápsulas — para aumentar a proporção do robusta.
Além dos custos de produção menores, com mais possibilidades de mecanização. No robusta, os arbustos são mais baixos e compactos, com frutos menos aderidos à planta, o que favorece a colheita em comparação com o arábica, onde o processo é majoritariamente manual.
“Hoje, o custo de uma saca de canéfora é de R$ 400, em média. O do arábica fica entre R$ 600 e R$ 700. Em uma cotação de mais de R$ 1 mil a saca, é uma atividade que hoje é interessante para o produtor.”
Revertendo a diáspora cafeeira
Uma introdução em escala de robusta em São Paulo resolveria outro gargalo: a concentração da indústria transformadora no estado e arredores, entre torrefadoras e solubilizadoras, e também de grande parte dos consumidores. “O mais racional e lógico pensando em frete e tributação seria produzir aqui”, afirma o pesquisador.
Nakayama lembra que todo o estado teve o café como cultura principal em algum momento. Mas após o declínio do setor, a partir do fim dos anos 1970, os produtores mudaram para outros produtos, como cana, pastagem e cereais. O arábica migrou para o cerrado mineiro, e, em solo paulista, ficou relegada a regiões mais altas.
Agora, as pesquisas sinalizam reverter parte dessa “diáspora” — com um significado circular também para Nakayama, cujos avós eram produtores de café.
“É um retorno às origens, digamos assim.”
Já são quase 20 anos de trabalho desde 2007, quando começou a trabalhar com o Instituto Agronômico (IAC) testando materiais clonais trazidos de outras regiões.
Os clones foram implantados junto a agricultores familiares em zonas consideradas com potencial, como a própria Adamantina e Lins, pelo clima favorável. “O principal gargalo é elencar clones de café que tolerem o frio”, ele explica.
Outro trabalho, mais demorado, é cruzar os materiais que suportaram bem o clima e produzir filhos deles, em um processo de seleção e melhoramento genético.
Parcerias com universidades aceleram o processo. Por exemplo, uma com a Unesp de Dracena, para selecionar plantas que transpirem menos, resultando em economia de água e mais tolerância ao calor.
Ao longo do tempo, a iniciativa agregou apoio financeiro de algumas empresas, como a Treviolo Café, a solubilizadora Cocam e a Café Altrão, especializada em expresso, além do viveiro de mudas local Robusta Raiz. Algumas prefeituras, como a de Tupi Paulista, subsidiaram o plantio de mudas para agricultores locais.
Hoje, já são 20 áreas experimentais em todo o estado.
Com a política pública, as ambições foram renovadas. “Estamos promovendo reuniões técnicas com cooperativas e associações para tirar a curiosidade.” A ideia é estimular produtores a testarem o robusta em partes de suas propriedades, ampliando gradualmente a área dedicada.
Os próximos passos incluem certificar mais viveiros para produzirem mudas de acordo com o protocolo. “A Coopercitrus está plantando um jardim clonal para alavancar a região de Bebedouro. Essa é a lição de casa para 2026”, diz Nakayama.
Outro objetivo é criar mais dez áreas experimentais, treinar corpo técnico, “seja do setor privado ou do Estado”, e convidar mais parceiros, incluindo gigantes como Nestlé e Melita.
“Sempre pensando em ajudar principalmente os produtores familiares. São os mais suscetíveis, sem opção de renda.”
É onde pega o senso de missão, diz o pesquisador: “A bandeira que levanto enquanto servidor público é ajudar as pessoas a se manterem no campo e produzirem alimento”.
A propósito, Nakayama não acredita que uma escalada do robusta possa canibalizar o arábica. “Quando a gente toma uma xícara de café, ela necessariamente tem que ter arábica, e pode ser pronunciada com um robusta de qualidade. Um complementa o outro.”




