A União Europeia ameaça suspender as importações de carne bovina e frango do Brasil caso o país não implemente medidas mais rigorosas de controle ambiental e sanitário. A decisão, que pode afetar um comércio bilateral de mais de R$ 8 bilhões anuais, foi comunicada nesta terça-feira durante reunião entre representantes do bloco e autoridades brasileiras em Brasília.
O ultimato europeu estabelece prazo até março de 2024 para que o Brasil apresente um plano detalhado de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, além de maior transparência na rastreabilidade da cadeia produtiva da carne. A medida também exige redução no uso de antibióticos na criação de animais e certificação de que os produtos não sejam originários de áreas desmatadas ilegalmente.
Segundo fontes do Ministério da Agricultura, a pressão europeia intensificou-se após relatórios de organizações ambientais apontarem aumento de 25% no desmatamento em áreas de pastagem entre 2022 e 2023. A UE também cita preocupações com a resistência antimicrobiana causada pelo uso excessivo de antibióticos na pecuária brasileira.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e o segundo maior de carne de frango. A União Europeia representa cerca de 15% das exportações brasileiras de carne bovina e 8% das de frango, movimentando aproximadamente R$ 5,2 bilhões e R$ 2,8 bilhões respectivamente em 2023.
“Estamos dispostos a dialogar e implementar as medidas necessárias, mas dentro de prazos realistas e tecnicamente viáveis”, declarou o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, após o encontro. Ele ressaltou que o setor já investe em tecnologias de rastreamento e sustentabilidade, mas reconheceu a necessidade de acelerar os processos.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) manifestou preocupação com os prazos estabelecidos. “Mudanças estruturais na pecuária demandam tempo e investimento significativo. Um embargo prejudicaria não apenas o agronegócio, mas toda a economia brasileira”, afirmou o presidente da entidade, Roberto Perosa.
A ameaça europeia surge em momento delicado para as relações comerciais Brasil-UE, com o acordo Mercosul-União Europeia ainda em negociação após mais de duas décadas de tratativas. França e Áustria lideram a resistência ao acordo, citando justamente questões ambientais e sanitárias da produção brasileira.
Especialistas em comércio exterior alertam que um eventual embargo europeu pode criar efeito dominó, levando outros mercados a adotar exigências similares. Estados Unidos e Reino Unido já sinalizaram interesse em rever seus protocolos de importação de produtos brasileiros.
O governo brasileiro anunciou a criação de um grupo de trabalho interministerial para elaborar resposta às demandas europeias. A equipe será coordenada pelo Ministério das Relações Exteriores e incluirá representantes da Agricultura, Meio Ambiente e Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Produtores rurais demonstram reações mistas à pressão europeia. Enquanto grandes grupos frigoríficos já possuem sistemas de rastreabilidade, pequenos e médios produtores temem os custos adicionais de adequação. “Precisamos de apoio técnico e financeiro do governo para implementar as mudanças exigidas”, disse João Martins, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A questão ambiental permanece como principal entrave. A UE exige garantia de “desmatamento zero” na cadeia produtiva, meta considerada ambiciosa por especialistas do setor. O monitoramento via satélite e blockchain são algumas das tecnologias propostas para atender às exigências europeias.
A ameaça de embargo da União Europeia representa um dos maiores desafios para o agronegócio brasileiro nos últimos anos. O sucesso nas negociações dependerá da capacidade do país em equilibrar pressões ambientais internacionais com a realidade econômica do setor produtivo. O desfecho dessa crise pode redefinir os padrões de sustentabilidade da pecuária brasileira e influenciar futuras relações comerciais com outros blocos econômicos.




