Os resultados trimestrais do Itaú Unibanco, que têm seguidamente batido recordes, tem sido apelidados pelos analistas de “relógio suíço”, dada a previsibilidade e confiança dos números. O próprio CEO, Milton Maluhy, disse que gosta de ser “boring” (“tedioso”, em inglês), nesse sentido, de evitar surpresas aos investidores.
Já no Banco do Brasil, o lucro caiu 60% em um ano e a rentabilidade foi reduzida para quase um terço do que era em meados de 2024. Em entrevista coletiva nesta sexta-feira, o vice-presidente financeiro do BB, Geovanne Tobias, foi lembrado de uma fala sua no passado, de que o BB é melhor do que o Itaú, e foi questionado se mantém essa declaração.
“Não tenho dúvida da nossa capacidade e qualidade de sermos o melhor banco do Brasil. Respeito [o Itaú], é nosso parceiro, nosso concorrente, entregou um resultado lindo, mas é um outro modelo de negócios. Fazer o que o BB faz, mesmo com altos e baixos… o Brasil é isso, é ”com emoção”, não somos a Suíça”, comentou o VP.
Questionada sobre a queda no “payout” (porcentual de pagamento de dividendos) do banco e comentários feitos por pequenos acionistas nas redes sociais, Tarciana afirmou que 2025 é um ano de ajuste, mas que a rentabilidade voltará a subir em 2026. E deixou uma mensagem bem clara: “Tenho um recado para o investidor: quem tem ação do BB, mantenha; quem não tem, compre”.
Em outro momento, ela lembrou que, em função dos ciclos políticos, o BB tem gestões “menos perenes”, e que seria mais fácil, do ponto de vista pessoal, retardar investimentos e garantir um bom resultado no curto prazo. “Para mim, seria mais fácil tomar a decisão de não investir e aumentar o resultado, mas não seria sustentável. Tomamos a decisão difícil de, nesta gestão, acontecer um resultado aquém do esperado, mas garantir um futuro sustentável para o banco.”
O BB sempre fez alarde sobre sua carteira agro, que tem garantias e uma inadimplência bastante baixa – o que puxa o indicador geral de atrasos do banco para trás. Agora, no entanto, a inadimplência disparou, atingindo o recorde de 3,94%, ante 2,45% um ano antes e 0,96% no fim de 2023.
O Brasil não vive uma quebra de safra, mas nos últimos uma série de fatores afetou o agro. Começou com a invasão da Rússia na Ucrânia, em 2022; secas e enchentes no Rio Grande do Sul, em 2023/2024; e, mais recentemente, uma queda nos preços das commodities. Tudo isso afetou os produtos, que vinham alavancados após anos recordes em 21/22.
Outro ponto é a resolução 4.966 do Banco Central, que mudou regras de provisionamento e também de reconhecimento de receitas. As medidas afetaram especialmente o agro, e de maneira mais forte operações de longo prazo. O BB disse que a nova regra gerou R$ 6 bilhões a mais de provisões no agro no segundo trimestre (em relação ao padrão contábil) anterior, e gerou menos R$ 2 bilhões em receitas.
Tobias apontou que algumas operações adimplentes, mas consideradas “problemáticas” pelas novas regras, vão para o estágio 2 e, assim, o banco deixa de reconhecer receitas com elas. “Temos R$ 37 bilhões em operações nessas condições e deixamos de acruar R$ 2 bilhões por conta dessa sistemática.”
Há ainda o que o banco chamou de litigância predatória. Em 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que grandes produtores rurais equivalem a empresas e, assim, podem pedir recuperação judicial (RJ), na pessoa física. Em 2023, o BB começou a ver um salto nesses pedidos de RJ, concentrados na região Centro-Oeste e na cultura da soja. Agora, diz que são 808 clientes nesta situação, que em menor proporção estão também na região Sul e nas culturas de milho e bovinos. Este fator tem impacto nos provisionamentos.
Tarciana disse que o banco observou que muitos escritórios de advocacia têm campanhas para atrair clientes para RJ, focadas em BB, e que está inclusive avaliando a possibilidade de entrar na Justiça contra eles. O BB divulgou que, dos cerca de 20 mil clientes inadimplentes em agro, 74% nunca tinham dado o calote no banco até 2023.
O BB tem adotado uma série de ações para tentar reverter a situação, como trocando as garantias usadas no agro (de penhor e hipoteca para alienação fiduciária, que é mais célere de se executar e muitas vezes não é incluída em uma RJ); melhorando a esteira de cobrança; e judicializando mais.
Tobias lembrou que o BB era conhecido como o banco que não executava garantias, que gostava de tomar um cafezinho com o cliente e evitar o estresse na relação, mas que agora isso está mudando.
Seja como for, se o BB por tantas décadas se vangloriou de ser o “banco do agro”, com uma participação de mercado de quase 50%, agora, no período de vacas magras (e soja e milho ressecados), ele terá de encontrar uma forma de fazer essa travessia.
Já o Itaú, além da precisão suíça nos resultados, também é tradicionalmente reconhecido como um banco com uma fatia maior na alta renda – assim como o país europeu. O banco vem adotando mudanças, experimentou um novo modelo de atendimento da baixa renda, com o iti, e agora criou um superapp, consolidando seis ou sete aplicativos diferentes em um só.
A economia da América Latina, em geral, é conhecida pela ampla volatilidade, como mostra aquele ditado de que, quando os EUA espirram, a região pega um resfriado. E as ações latinas tendem a ter uma sensibilidade maior que as bolsas de países desenvolvidos.
Quando se trata do seu dinheiro, no entanto, o investidor gosta de previsibilidade. Ações que caem ou sobem muito podem ser boas para os adeptos do “day trade”, mas acionistas de longo prazo valorizam mesmo os dividendos. Entre a “emoção” do BB e o “tédio” do Itaú, eles mostram sua preferência. Desde que Tarciana assumiu, em 2023 , a ação do BB sobe 15,3%. Já a do Itaú avança 65,3% no mesmo período.




