A notícia da entrada do Mercado Livre no setor de farmácias, com a compra de uma loja em São Paulo, acendeu um sinal de alerta para as redes incumbentes como RD e Pague Menos.
A leitura entre analistas e investidores é de que o movimento não deve gerar um impacto no curto prazo, mas cria um risco relevante de disrupção no médio/longo prazo — principalmente se vier junto de mudanças na regulação.
O MELI confirmou na sexta-feira a notícia de que estaria comprando a Target, uma farmácia localizada no Jabaquara, em São Paulo, e que pertence à startup Memed, de prescrição médica.
A reação do mercado foi imediata. A RD perdeu quase 7% de seu market cap, enquanto a Pague Menos viu seu papel ceder 4%.
Num relatório – intitulado “Um pequeno comprimido para a MELI, uma grande dor de cabeça para as farmácias” – a XP notou que a aquisição é uma forma inteligente do Mercado Livre navegar os desafios regulatórios.
Hoje a Anvisa impõe três restrições para a venda de medicamentos online: eles só podem ser enviados de uma drogaria licenciada, e não de centros de distribuição; um farmacêutico precisa estar disponível durante todo o período de vendas (no caso da MELI, 24/7); e medicamentos controlados não podem ser vendidos online.
“Nesse sentido, a entrada do MELI no varejo físico, mesmo com uma presença limitada, é uma forma inteligente de trabalhar com essa regulação ao efetivamente criar um ‘mini-CD’,” escreveu a analista Danniela Eiger.
A XP disse ainda que vê o movimento do MELI como um primeiro passo na construção de sua presença no mercado de farmácias.
“A companhia pode usar essa farmácia como um projeto piloto e depois adquirir lojas mais estrategicamente localizadas ao redor do País para escalar a categoria,” disse ela. “Acreditamos que o MELI vai encontrar pouca resistência em achar farmácias dispostas a serem vendidas, especialmente entre as redes independentes, dados o alto juros e a competição crescente.”
Na prática, mesmo com a aquisição da farmácia, o Mercado Livre não poderia vender os medicamentos direto em seu marketplace, já que a regulação exige que a venda seja feita no site da farmácia, e não em plataformas.
“Acreditamos que uma das possibilidades é que o Mercado Livre crie um site/app chamado “Farmácia MELI” em cima do ativo adquirido. Com isso, ele poderia direcionar tráfego de seu marketplace, com as vendas sendo concluídas no domínio da farmácia, para satisfazer a RDC 44,” escreveu o Santander.
“Também acreditamos que seria mais fácil para o MELI ter um único ponto físico, com alguns farmacêuticos prontos para preencher as prescrições eletrônicas, como muitas farmácias já fazem. A escala deve ser modesta no início, mas o MELI poderia aprender os detalhes sobre sortimento, reembolso e a última milha.”
Para o banco, esse caminho criaria know-how dentro da gigante do ecommerce sem ir contra as regras atuais da Anvisa — deixando o Mercado Livre pronto para avançar no setor caso o framework legal evolua.
A notícia da entrada do MELI no setor vem num momento em que as redes de drogarias já estão pressionadas com outra potencial ameaça: o PL 2158, que está sendo discutido no Senado e que permitiria a venda de medicamentos nos supermercados, criando outro canal de concorrência para o setor.
Apesar de haver resistência do atual Ministro da Saúde em relação ao PL, a discussão vem criando um overhang nas ações do setor, que será potencializado com a entrada de um novo competidor de peso.
Para o Santander, o avanço na regulação pode estar por trás do movimento da MELI.
“Não podemos descartar que essa potencial aquisição possa estar relacionada ao debate em andamento no Congresso sobre o PL 2.158. Se mudanças regulatórias futuras eventualmente afrouxarem as restrições do marketplace, o MELI estaria, com essa aquisição, bem posicionado para escalar, dado seu tráfego online incomparável e sua capacidade de fulfillment.”




