Diante de um mercado espremido, a Jalles aposta em mais hedge e mais etanol para proteger o balanço de uma safra que promete ser dura.
No terceiro trimestre do ano-safra 2025/26, a empresa apresentou um Ebitda 7,7% maior, de R$ 1,02 bilhão, e um lucro líquido de 55,4 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 73,5 milhões em igual período do ano passado.
Isso mesmo em um cenário em que o clima pesou e impôs uma quebra de 15,1% no ATR (indicador de produtividade da cana) da empresa, que é um dos benchmarks do setor sucroalcooleiro no País e uma das maiores produtoras de açúcar orgânico do mundo.
A situação foi agravada na unidade Santa Vitória, onde a queda no ATR chegou a 32,8% no terceiro trimestre da safra. Como resultado, a variação do ativo biológico foi de R$ 37,7 milhões negativos.
As perdas na produção — principalmente por fatores climáticos, com a exceção de matocompetição na Usina Jalles Machado — teriam produzido efeitos ainda piores no balanço da companhia, não fosse o tamanho da posição de hedge.
No acumulado dos nove meses, a Jalles Machado gerou R$ 267,3 milhões em resultado financeiro a partir dos contratos de hedge, um aumento de 182,4% em relação ao mesmo período da safra anterior.
Cerca de 75% da produção da próxima safra (2026/27, que começa em abril) está hedgeada. Outros 40% da safra 2027/28 também.
“Nos próximos dois anos, praticamente, nós estamos tranquilos em relação ao mercado de açúcar”, explicou o diretor.
Apesar das contribuições positivas do hedge, no final das contas, as perdas na produtividade praticamente compensaram os ganhos financeiros — situação que Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, analistas do BTG Pactual, definiram como “Safra dura, balanço forte” em um relatório divulgado hoje.
“Estamos fixados nas próximas safras em níveis superiores aos do mercado, uma marcação grande por causa da queda recente do açúcar. Mas isso foi quase anulado pelo efeito negativo no ativo biológico”, afirmou o executivo.
Mix mais alcooleiro
No acumulado dos nove meses da safra 2025/26, a empresa teve um mix de produção de 53,6% etanol e 46,4% açúcar. Sem adiantar detalhes da próxima safra, Siqueira ressaltou que será um período de desafios e ajustes rápidos.
“Muita coisa pode acontecer durante a safra. Vamos começar o mais alcooleiro possível, como o setor inteiro. Depois, o etanol pode chegar em um nível que comece a dar equivalência com o açúcar.”
Por enquanto, os incentivos para uma safra mais alcooleira estão visíveis. Considerando o preço do açúcar na tela (para os contratos K e N, os próximos vencimentos), estão equivalentes a um etanol de R$ 2,10.
“Acho que esse quadro vai mudar ao longo da safra, mas vamos estar bem atentos para ir rodando conforme o mercado se adequar”, ressaltou o executivo.
A se confirmar a hipótese de mais etanol, a empresa considera “reverter” parte dos contratos de hedge nos primeiros estágios da safra — no cenário projetado, o custo é menor do que o ganho em impulsionar o mix rumo ao etanol.
Não à toa, a Jalles Machado tem apenas 50 mil toneladas em contratos de hedge de açúcar com entrega física na próxima safra. “Se o etanol estiver melhor no spot que o açúcar, posso mudar o mix e reverter o hedge”, disse o executivo.
Embora as projeções indiquem condições climáticas melhores na próxima safra, as usinas agora enfrentam outro desafio: preços do açúcar negociados abaixo dos custos unitários, avaliam Duarte e Guttilla, do BTG.
Segundo eles, a Jalles se destaca nesse sentido, e a camada extra de proteção do hedge “deve suavizar significativamente o impacto e melhorar a visibilidade nas próximas safras, com proteção a um preço médio 56% acima do preço à vista”.
Mas para entregar o potencial que ostenta, a ação da empresa (JALL3) vai precisar concretizar as promessas de melhora na produtividade, dizem os analistas. No terceiro trimestre, a moagem caiu 10% na base anual, disse Siqueira.
Por outro lado, ele refutou que a empresa possa deixar de fazer renovação de seus canaviais. Nesse sentido, ressaltou, a Jalles investiu R$ 1,7 milhão em irrigação no período para ampliar a área coberta, condição na qual, segundo Siqueira, a longevidade do canavial é maior — daí a idade média atual em entre 3,2 nos e 4 anos nas lavouras da Jalles. “Sem irrigação, seria de 3 anos”.
Seja como for, enquanto resultados concretos em termos de produtividade não vierem, a pressão sobre as ações no curto prazo pode persistir, avalia o BTG Pactual. Nos últimos doze meses, o papel acumula queda de 30% na bolsa, com a empresa avaliada a R$ 919,7 milhões.
“A produtividade continua sendo um fator crucial, e a Jalles ainda enfrenta desafios operacionais, especialmente em Santa Vitória. Ficamos impressionados com nossa visita à usina, mas o que realmente impulsiona alavancagem neste negócio é canavial. Se a tão necessária melhora se materializar, as margens devem aumentar. Mas até que surjam sinais claros, é difícil imaginar uma mudança no sentimento do mercado”, escrevem os analistas.




