O outono chega nesta sexta-feira ao Hemisfério Sul, marcando o início de uma transição climática que promete ser especialmente turbulenta em 2026.
A estação, que historicamente representa a passagem do verão chuvoso para o inverno seco, terá desta vez um complicador a mais: o Oceano Pacífico também atravessa sua própria mudança, encerrando um ciclo de La Niña fraco e abrindo caminho para um El Niño que deve se intensificar no segundo semestre.
A sobreposição dos dois fenômenos — a transição estacional e a mudança oceânica — cria um cenário de dupla incerteza. Modelos climáticos de referência mundial chegam a conclusões distintas sobre o que esperar nos próximos meses.
A Universidade de Columbia aponta para chuvas acima da média no centro e no norte do Brasil, com déficit hídrico no Sul — um padrão associado ao La Niña. Já o modelo europeu ECMWF sugere um quadro intermediário, com precipitação elevada tanto na costa norte quanto na região Sul do País.
Chuvas diminuem nos próximos dias
A tendência mais imediata é de diminuição das chuvas. Nos dias seguintes ao equinócio de outono, espera-se uma redução generalizada das precipitações em todo o território nacional.
As frentes frias devem estacionar sobre a Argentina, gerando um paradoxo climático para o país vizinho: após semanas de estiagem que prejudicaram o desenvolvimento da safra, a chegada das chuvas agora representa um obstáculo à colheita.
No Brasil, o cenário é de retração hídrica progressiva. A última semana de março deve registrar acumulados inferiores a 15 milímetros em uma faixa que vai do norte do Paraná até o sertão nordestino. Ao longo da primeira quinzena de abril, a escassez de chuvas deve avançar também sobre o Centro-Oeste.
O alerta recai sobre a segunda safra de milho — a chamada safrinha —, plantada fora do calendário recomendado e, portanto, mais vulnerável ao estresse hídrico do início do outono.
Uma recuperação parcial das chuvas está prevista para a segunda metade de abril, mas o mês de maio deve voltar a apresentar condições mais secas e quentes nas principais regiões produtoras do País.
El Niño no fim da estação
O desfecho do outono traz uma inversão do padrão. Com o El Niño ganhando força, junho deve ser significativamente mais chuvoso do que a média histórica no Paraná, em São Paulo e no Mato Grosso do Sul — exatamente no período em que essas regiões deveriam viver sua fase mais seca, coincidindo com a colheita do milho, da cana-de-açúcar e do algodão.
Além disso, o aumento da precipitação poderá dificultar os trabalhos de campo e piorar a qualidade das culturas de inverno no Paraná e no sul de São Paulo.
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Celso Oliveira é especialista em tempo e Clima da Tempo OK. Atua há mais de 20 anos em análises climáticas para a agricultura.




