Atenção, amantes do café: a sua bebida vem mudando, mas provavelmente você não está percebendo. O motivo? Além dos preços recordes do arábica nos últimos anos, a qualidade do robusta, variedade que carregou a fama de menor qualidade durante muito tempo, está cada vez melhor.
Até há alguns anos, o blend — como é chamada a mistura de variedades nos produtos ofertados no varejo, do café em pó às cápsulas — costumava ser majoritariamente de arábica, visto como de qualidade superior e do qual o País é o maior produtor. Mas uma mudança nessa mistura, identificada nos últimos anos, acelerou no último ano.
A fatia dos canéforas (dos quais robusta e conilon são subespécies, embora “robusta” seja usado como sinônimo de “canéfora”) na mistura subiu em cerca de 20% no último ano, fazendo a proporção ficar, na média, entre 75% e 80%, segundo uma fonte do mercado.
Ela apela à aritmética: a conta de oferta, exportação e consumo só fecha presumindo um blend mais favorável ao robusta.
“Ao menos 30% do café brasileiro é canéfora. A maior fatia da nossa produção é para mercados de fora, e o que chega lá é majoritariamente arábica. A conclusão possível é que a quase totalidade dos canéforas está sendo consumida aqui”, diz a fonte, que pediu para não ser identificada porque a informação é estratégica para as indústrias.
A Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café), que representa as indústrias torrefadoras no Brasil, confirma o aumento, embora não endosse o percentual.
“As indústrias não passam qual blend estão usando, mas de fato houve no ano passado uma busca para que esse percentual fosse maior. E inclusive cresceram os produtos 100% robusta. A gente não tem o número, mas é possível, sim, que as indústrias tenham usado mais robusta”, explica Celírio Inácio da Silva, diretor executivo da entidade.
Ajuste mais agudo
A mudança não é necessariamente uma novidade: já faz alguns anos que o blend nacional passou a recepcionar mais robusta e conilon. Às vezes, até usando a mudança como mote: a Nestlé, uma das maiores do setor, lançou em 2010 a cápsula Ispirazione Palermo Kazaar com 80% robusta, sob a ideia de um café mais encorpado.
Desde então, a multinacional lançou linhas exclusivas para canéforas, como a Buondi Robusto e a Nescafé Dolce Gusto NEO Caseiro Dark. Outras marcas, como Três Corações, seguiram o mesmo caminho — antes mesmo de uma portaria do Ministério da Agricultura ordenar, em 2022, que o café torrado, em grão ou moído, trouxesse na embalagem a informação de qual espécie era predominante.
Mesmo assim, o ajuste recente foi mais agudo, a ponto de ser sentido nos números de exportação. Segundo o relatório mensal do Cecafé, em janeiro o Brasil teve queda de 30,8% no volume de café exportado, acentuada para 45,6% nos canéforas.
A explicação é que a maior oferta de robusta — que tinha nos EUA seu maior mercado na forma de café solúvel, mas hoje vê a venda do produto inviabilizada pela taxa de 50% — baixou o preço no mercado físico e favoreceu o ajuste no blend.
“A forte queda nas exportações do robusta sinaliza que ele é hoje o principal produto abastecedor da indústria interna, consumindo localmente a maior parte da oferta que deixou de ir para exportação”, comentou Eduardo Heron, diretor técnico do Cecafé, em entrevista sobre os números de janeiro.
A nova fase do robusta
Segundo Silva, da Abic, além da produção de arábica aquém da necessidade nos últimos dois anos, jogou a favor dos ajustes recentes nos blends o aumento da qualidade dos canéforas, tanto na lavoura quanto no pós-colheita.
A espécie é mais resistente às oscilações climáticas, ele explica, e tem custo menor, já que a colheita usa maquinário — ao contrário da do arábica, predominantemente manual.

Leonardo Rossetti, especialista em inteligência de mercado da StoneX, confirma essa visão: “É uma planta que entrega melhor produtividade e maior rentabilidade na comparação com o café arábica”.
Silva descreve uma transformação cultural, entre os produtores, conforme o preço do robusta foi se aproximando, nos últimos anos, da cotação do arábica.
“O canéfora antigamente era maltratado. Quem comprava não dava valor à qualidade, e, por isso, o produtor colhia de forma intempestiva, muito verde. Hoje, o arábica e os canéforas têm o mesmo tratamento: fertilizantes, irrigação, tudo.”
Rossetti endossa a ideia de melhoria. “O robusta sofria muito no pós-colheita, porque era visto como um café ‘só para entrar no blend’. Os produtores jogavam no secador, com fogo e fumaça, porque o importante era escoar rápido. Hoje, temos visto métodos de secagem mais lentos, mas que conservam a qualidade.”
Silva reforça que que o blend varia para refletir condições de mercado, mas ressalta que a mudança é sempre gradual, por conta do cuidado com a fidelidade da clientela.
“Uma mesma MARCA pode ter hoje mais canéfora e amanhã mais arábica. Há uns 14 meses, tivemos o canéfora brevemente mais caro que o arábica. Mas o industrial sabe que não pode contrariar seu consumidor. Por isso, não faz movimentos drásticos.”
Ele defende que já não se trata mais de uma questão de melhor ou pior, mas de gosto.
“Trabalhei junto a uma MARCA muito boa que produzia um dos melhores cafés do mercado, 100% arábica. Ela foi ao Espírito Santo e foi rejeitada. Para aquele público, acostumado a tomar robusta, quando veio o arábica, não gostou.”
Tendência global
O ajuste no blend nacional vai ao encontro de uma tendência global que deve se intensificar, segundo os especialistas.
De acordo com uma fonte, pesquisas junto a consumidores mostram elogios aos cafés — principalmente às cápsulas de expresso — pelo corpo, creme e robustez, que são justamente atributos conferidos à bebida pelo robusta.
“Os canéforas, uma vez misturados ao arábica, ajudam a manter as características organolépticas. Um expresso 100% arábica sai aguado na xícara. O que traz corpo, cremosidade e força é o robusta, enquanto o arábica traz doçura, perfume e aroma.”
Rossetti, da StoneX, reforça o diagnóstico: “O aumento do uso de robusta no blend deve se intensificar, porque o consumidor não sentiu diferença e manteve o consumo”.
Segundo ele, a tendência de ajuste nos blends até vem resvalando nos mercados mais exigentes e que ainda consomem mais arábica, como EUA, Europa e Japão, mas em ritmo menor. “Isso ainda acontece de forma mais intensa em mercados emergentes.”
Por outro lado, Rossetti não crê que o ajuste no blend para favorecer a espécie mais barata se traduza em mais queda nos preços ao consumidor — a inflação do café no varejo em 12 meses caiu de 82% em maio para 35% em dezembro.
Em um primeiro momento, a “folga” será usada pela indústria para recompor as margens que estiveram muito apertadas, segundo Rossetti. “Mas a sensação é de que o pior já passou em termos de repasses, esperamos um 2026 de preços melhores do que 2025.”




