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Diante do gargalo brasileiro de talentos em tecnologia, André Esteves, chairman do BTG Pactual, e Roberto Sallouti, CEO do banco, decidiram criar uma faculdade — o Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli).
Agora, o Inteli acaba de ser reconhecido como uma das instituições de ensino superior mais inovadoras do mundo, ocupando a 100ª posição no World University Rankings for Innovation.
Idealizado por pesquisadores sul-coreanos, o ranking avalia a capacidade das faculdades de converter conhecimento em soluções concretas para o mercado
A metodologia do Inteli é baseada em projetos, permitindo que os alunos aprendam de forma prática e desenvolvam soluções para empresas, ONGs e entidades públicas.
Em pouco mais de quatro anos, os estudantes criaram quase 800 protótipos em parceria com diversas instituições, com um índice de satisfação de 94%.
O Inteli oferece um programa de bolsas que cobre integralmente as mensalidades e custos de vida, formando líderes com conhecimento em tecnologia.
A proposta é transformar a educação e o mercado de trabalho no Brasil, alinhando-se às demandas do setor produtivo.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Era 2016 e o BTG Pactual ensaiava os primeiros passos de sua transformação digital. Logo a cúpula do banco se viu diante de um desafio que, anos depois, ainda assombra muitas empresas brasileiras: a dificuldade de encontrar talentos em tecnologia. Não apenas profissionais com domínio técnico, mas pessoas capazes de pensar a inovação como ferramenta de negócios e de impacto real.
Em viagem ao Vale do Silício, na Califórnia, o chairman André Esteves e o CEO Roberto Sallouti quiseram entender por que o Brasil não aparecia de forma mais consistente no radar dos investidores globais. Um capitalista de risco ecoou o que os dois viviam no banco — gargalo de talentos em tecnologia.
Se o maior desafio para o avanço tecnológico brasileiro estava na formação de pessoas, era preciso investir em educação de ponta. Mas Esteves e Sallouti não montaram um fundo para financiar laboratórios nem patrocinaram um programa de treinamento corporativo. Decidiram criar uma faculdade. Do zero.
Assim, em 2022, começaram as aulas no Instituto de Tecnologia e Liderança, em São Paulo. Sem fins lucrativos e viabilizado por uma doação inicial de R$ 200 milhões da família Esteves, o Inteli acaba de receber uma chancela importante: foi eleito uma das instituições de ensino superior mais inovadoras do mundo.
Pela primeira vez, o Brasil aparece na classificação do World University Rankings for Innovation. Entre as 500 entidades analisadas pelo Wuri, o Inteli ocupa a 100ª posição — à frente de todas as outras latino-americanas.
Idealizado por pesquisadores sul-coreanos, em vez de priorizar reputação acadêmica ou volume de produção científica, como os sistemas tradicionais, o ranking analisa a capacidade das instituições de converter conhecimento em soluções concretas para o mercado.
Não à toa, as 24 categorias do ranking estão divididas em três eixos: Para quem inovar, O que inovar e Como inovar. Em aplicação industrial, o Inteli está em 10º lugar.
“Nossa presença no Wuri posiciona o Brasil em um novo patamar dentro das discussões globais sobre o futuro da educação e do trabalho”, diz Maira Habimorad, CEO do instituto, em entrevista ao NeoFeed. “Mais do que produzir conhecimento, estamos formando cidadãos capazes de atuar de forma efetiva onde estiverem.”
A metodologia do Inteli é 100% baseada em projetos. No chamado PBL, do inglês project-based learning, o aluno sai do modo passivo e se torna protagonista do próprio aprendizado. Em vez de ser submetido a um ensino estruturado na previsibilidade do que já se conhece ou pode ser provado, ele “aprende fazendo”.
Em pouco mais de quatro anos, os alunos do instituto desenvolveram quase 800 protótipos em parceria com 115 organizações. Entre elas estão empresas como Uber, Gerdau, Ambev, Bank of America, Dell, Google, Oracle, Natura, Meta e Volkswagen; ONGs como AACD e Gerando Falcões; e 32 órgãos públicos, incluindo a secretaria estadual de Educação de São Paulo e a prefeitura do Guarujá, no litoral paulista. O índice de satisfação com as colaborações gira em torno de 94%.
Desenvoltos, seguros e maduros
“Os alunos do Inteli têm uma base muito sofisticada de tecnologia e dados”, diz Laura Bueno Lindenberg, chief human resources officer (CHRO) da Eletromidia, em conversa com o NeoFeed. “Mas eles colocam de fato a mão na massa e, com isso, entendem a realidade e os desafios das empresas.”
Divididos em grupos, cerca de 40 jovens do terceiro ano de Engenharia da Computação desenvolveram um projeto voltado à área de smart cities da companhia. A proposta era mapear o perfil do público que circula por diferentes regiões da capital paulista, identificando características como gênero, faixa etária e classe social.
Ao final, a Eletromidia adotou alguns dos códigos criados pelos estudantes. “Foi excepcional”, diz Lindenberg. “Elevou nossa sofisticação interna.”
A pedagogia baseada em projetos não transforma apenas a formação acadêmica dos estudantes — molda também sua postura e seu comportamento no mundo corporativo. A executiva lembra a desenvoltura, segurança e maturidade dos estudantes nas reuniões com a diretoria da Multimidia. “Eles chegam mais bem preparados ao mercado de trabalho”, afirma ela.
Em um mundo em constante transformação como o atual, curiosidade, lifelong learning e disposição para se adaptar a novas situações são imprescindíveis para acompanhar ciclos de inovação cada vez mais curtos, defende Lindenberg.
Inovação aberta
Em um ambiente em que o conhecimento envelhece rapidamente, é inviável manter as faculdades isoladas do mercado, como aconteceu no Brasil durante boa parte do séculos 20.
A elite acadêmica do país conservou, muitas vezes com orgulho, distância do “mundo real”. O afastamento era visto como símbolo de sofisticação intelectual e autonomia — herança da tradição europeia e da concentração histórica do ensino superior em instituições públicas.
Os Estados Unidos seguiram o caminho oposto. As universidades mais influentes do planeta nasceram privadas e foram financiadas por mensalidades, doações e parcerias corporativas. Assim, mantiveram-se em sintonia com as demandas do setor produtivo e se firmaram como motores de inovação e desenvolvimento. Foi nesse paradigma que Esteves e Sallouti se inspiraram.
Sem fins lucrativos, o Inteli oferece o maior programa de bolsas de uma instituição privada no Brasil. Entre empresas, fundações e pessoas físicas, cerca de 60 doadores custeiam os estudos de metade dos 706 alunos.
O espaço em que a faculdade está inserida também ajuda a potencializar a conexão entre formação acadêmica, pesquisa aplicada e as necessidades reais de mercado. O prédio da faculdade fica no terreno do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, no campus da Universidade de São Paulo.
O projeto IPT Open está transformndo o lugar em um vibrante ecossistema de inovação aberta. Em junho, por exemplo, o Google deve inaugurar um centro de engenharia ali.
Sem fricção com o mercado
Não por acaso, 93% dos 136 alunos da primeira turma do Inteli, formada em 2025, estão empregados. Outros 6% se lançaram em seus próprios negócios. Entre eles está o paulista Raduan Muarrek, de 25 anos.
No último ano, ele escolheu a trilha empreendedora da instituição — uma das três possíveis, além da acadêmica e da corporativa.
Ainda na graduação, com dois colegas de faculdade, ele cofundou a startup de inteligência artificial Hakutaku. “A gente começou a levantar dinheiro ganhando hackathons, uma prática enraizada na cultura do Inteli”, conta Muarrek ao NeoFeed.
A metodologia adotada pela instituição ajudou a aprimorar a capacidade de aprender rapidamente novas tecnologias, diz o jovem. Hoje, a startup conta com cinco colaboradores, dois deles também ligados ao Inteli, e já levantou capital em duas rodadas de venture capital.
Os três sócios desenvolveram um SaaS que, transforma dados dispersos, em uma espécie de “segundo cérebro” das corporações. “A metodologia do Inteli é muito parecida com a que usamos hoje na empresa. Não teve fricção entre faculdade e mercado”, diz. “Nós queremos ajudar os líderes a tomar as melhores decisões.”
Ao fim, é como resume André Esteves sobre o propósito do Inteli no vídeo de apresentação do instituto: “A gente quer formar lideranças que tenham conhecimento em tecnologia e que a partir daí possam irrigar a sociedade com o seu conhecimento, com os seus valores e com a sua ambição transformadora.”
Menos de uma década depois daquela viagem ao Vale do Silício, a resposta ao gargalo tecnológico brasileiro está tomando forma — e ganhando prestígio global.




