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sábado, maio 16, 2026

‘Parte das armas apreendidas aqui vêm dos EUA, a desgraça não está só aqui’

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Levantamento realizado por especialistas em segurança pública revela que uma parcela significativa das armas de fogo apreendidas no Brasil tem origem nos Estados Unidos, evidenciando um problema que transcende fronteiras nacionais. A constatação foi feita durante análise de dados de apreensões realizadas pela Polícia Federal e forças de segurança estaduais nos últimos três anos.

O estudo, conduzido pelo Instituto Sou da Paz em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo, analisou mais de 15 mil registros de apreensões realizadas entre 2021 e 2024. Os resultados apontam que aproximadamente 30% das armas com origem identificada vieram dos Estados Unidos, seguidas por armamentos de países sul-americanos como Paraguai e Argentina.

“Os dados confirmam nossa suspeita de que o problema da violência armada no Brasil não pode ser resolvido apenas com políticas internas”, afirma a pesquisadora Maria Santos, coordenadora do levantamento. “Existe uma rede internacional de tráfico que precisa ser combatida de forma coordenada entre os países.”

As rotas identificadas mostram que as armas americanas chegam ao Brasil principalmente através de três corredores: pelo porto de Santos, via fronteira com o Paraguai e através da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. A Polícia Federal confirma que tem intensificado as operações nessas regiões.

O delegado federal Roberto Lima, especialista em crimes transnacionais, explica que as armas americanas são especialmente valorizadas no mercado ilegal brasileiro. “Elas têm maior durabilidade e precisão, por isso chegam a custar três vezes mais que armamentos de outras origens”, disse ao ser questionado sobre o fenômeno.

Segundo dados da Receita Federal, as apreensões de armas em portos e aeroportos aumentaram 45% no último ano. Somente no Porto de Santos foram interceptadas 127 armas de origem americana em 2024, contra 89 no ano anterior. Os números não incluem as apreensões feitas em operações policiais nas ruas.

O problema também tem chamado atenção de organizações internacionais. A ONU divulgou relatório em setembro alertando para o crescimento do tráfico de armas na América do Sul, com destaque para o Brasil como principal destino dos armamentos contrabandeados.

“Não é possível tratar a questão da segurança pública de forma isolada quando o crime é globalizado”, pondera o sociólogo Carlos Mendes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que estuda criminalidade urbana há duas décadas.

As autoridades americanas têm sido procuradas pelo governo brasileiro para estabelecer protocolos de cooperação mais efetivos. Em outubro, uma delegação da ATF (Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives) esteve em Brasília para discutir estratégias conjuntas de combate ao tráfico.

O Ministério da Justiça informou que está elaborando um plano nacional de combate ao tráfico internacional de armas, com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2025. A iniciativa deve incluir maior integração entre órgãos de inteligência e fortalecimento do controle nas fronteiras.

Para especialistas, o combate efetivo ao problema exige mudanças estruturais. “É necessário investir em tecnologia de rastreamento, melhorar a fiscalização portuária e, principalmente, estabelecer acordos bilaterais mais rígidos com os países de origem”, sugere a pesquisadora Maria Santos.

Os dados revelam que o combate à violência armada no Brasil enfrenta desafios que vão além das políticas públicas domésticas, exigindo cooperação internacional efetiva. A identificação das rotas de tráfico representa um primeiro passo importante, mas especialistas alertam que são necessárias medidas coordenadas entre países para reduzir efetivamente o fluxo de armamentos ilegais que alimentam a criminalidade brasileira.

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